Antes de falar do herói de Typhoon Family quero mostrar como se deu a minha jornada com tal cultura oriental. As produções coreanas, em especial, são mestras em retratar o que Jung chamava de “mundo interior”. Elas não focam apenas na ação, mas na jornada da alma, no trauma, na resiliência e, principalmente, nas relações humanas. Talvez, seja por isso que estejam fazendo tanto sucesso no Brasil. É bem diferente das produções ocidentais que estamos acostumados. Não que estas deixam a desejar; pelo contrário. O que ocorre é que as produções coreanas tocam em algo, que até então, parecia estar inconsciente para nós ocidentais. Não tem como negar que esteja ocorrendo um fascínio e uma identificação geral com tal cultura.
“Falo por mim também. Já assisti à várias séries e filmes e acho muito interessante a forma como eles abordam os sentimentos, a vida e o respeito que há nos processos psíquicos mais profundos. Há uma verdade e um cuidado na forma como eles tratam dessas questões. Nos convidam a um lugar filosófico e psicologicamente profundo. Mas também, como qualquer país do Planeta Terra eles têm suas idiossincrasias, seus problemas. Algo que sempre me assusta muito em tal cultura é o bullying relatado nessas histórias e o consentimento da grande maioria dos adultos inseridos naquele contexto escolar, e às vezes, fora também. E isso acaba se refletindo, futuramente, nas relações de poder no mundo do trabalho. Não vou aqui fazer juízo de valor sobre o tema porque é sabido que há questões culturais envolvidas aqui, muito diferentes do Brasil, e o nosso Brasil também tem suas questões polêmicas. Mas é algo que sempre me choca nas produções.”

Recordo-me que relutei para assistir ao filme, O parasita (2019). Este foi um contato inicial com tal arte desta cultura. Confesso que havia ali um preconceito do tipo: “Obra coreana?! Ah! não quero assistir.” Porém, ao dar uma chance deixando de lado o meu complexo de superioridade, de achar que o outro desconhecido não é tão bonito quanto ao que conheço, fui assistir e então, foi possível descobrir o porquê, merecidamente, ganharam o Oscar, em 2020. Foi um belo de um soco no estômago. E isso se repete em várias obras coreanas que já assisti. Há sempre uma questão moral muito forte exposta; que deve ser pensada, refletida, digerida e elaborada. Não é muito do feitio da forma como as coisas ocorrem por aqui na América Latina. Aqui parece ter mais uma predominância voltada para o corpo e o movimento (extroversão), e lá parece ter um foco maior nas questões da Alma, na introspecção. Claro que isso não é uma regra geral. Isso é uma percepção geral da minha visão, restrita ao meu campo subjetivo assistindo à algumas obras. Sinceramente, eu ainda não sei direito o que é isso. Só sei que é muito diferente daqui e por isso, é fascinante esse desconhecido. É diferente!

Não sei se é um consenso geral, mas esses diretores coreanos sabem mexer com as nossas emoções mais profundas (instintuais) e nos deixam indignados com essas histórias traumáticas. Que atire a primeira pedra quem nunca sentiu raiva, tristeza ou nojo devido às enormes injustiças abordadas nestas histórias. Todavia, após as personagens, praticamente “morrerem por dentro e quase que por fora também”, pois o ego fica dilacerado; no final da trama, elas renascem como uma fênix, plena e curada. Você sente até um vazio no final da série. Engraçado, não é? Acabam-se as lutas. E tem-se a vitória. Mas que não deixa de ter muitas marcas de dor e sofrimento, mas que foram transformados.
A superação não é sobre voltar ao que éramos antes do fogo, mas sobre recolher as cinzas e permitir que elas formem alguém mais consciente. Assim como a fênix, a alma não se cura esquecendo a dor, mas transformando-a em asas

E nesse contexto surge o herói, Kang Tae-poong, interpretado pelo competente Lee Jun-ho da série: Typhoon Family. Como uma aventura, Typhoon se inicia com uma situação de necessidade. Em plena crise financeira de 1977, um filho despreocupado herda a empresa em apuros do pai e se vê forçado a aprender a ser chefe e amadurecer.
O que se vê nesta personagem? Algo fundamental que todo ser humano deveria ter desde o nascimento: o verdadeiro cuidado consigo mesmo e com o outro. Tae-poong foi criado com muito amor pelos pais e aprendeu o significado do amor. Ele amava seu pai e tinha caráter. Apesar de a história não focar, diretamente, no relacionamento deles, o pai e o filho na adolescência, fase mais comum de afastamento, percebe-se que eles se distanciaram por algo não falado, o que ficou de arrependimento para o filho não ter se expressado como se sentia, verdadeiramente, antes da morte do progenitor.

E Tae-poong com seu jeito leve e descontraído, muitas vezes ingênuo sim, como uma boa história de herói, conseguiu vencer a si mesmo e ao mundo externo. É extremamente bela a forma como ele consegue resolver problemas sempre pensando no melhor das pessoas. Ele não desiste de ninguém. Tae-poong usa sua sensibilidade para amparar o fraco, demonstrando uma maturidade que transcende o arquétipo do jovem irresponsável.

Pela visão da psicologia analítica junguiana é nítida a influência de sua estrutura familiar: pai e mãe. Ele não deixava de passar por grandes desafios sem se transformar, e sem deixar de transformar o outro. Ele galgou seu sentido de pertencimento à equipe e conquistou o seu espaço como líder nato. Ele tinha autoestima! Tornou-se um homem com honra e dignidade, que sabe o certo e o errado. Ele identifica o fraco e o ampara; não o derruba. O que denota um arquétipo paterno bem sucedido. Além disso, muito generoso e afetuoso, principalmente, respeitoso, com as mulheres. Um homem de bem com sua anima (o lado feminino e sensível na psique do homem). Algo mais raro nos dias atuais, em que se vê muitas notícias de feminicídio. (Na psicologia junguiana, a anima representa o componente feminino na psique masculina, sendo a ponte para o inconsciente e o princípio de Eros. O homem consciente de sua anima mantém um vínculo de respeito e amor para com a “terra” e o feminino, o que o afasta de comportamentos destrutivos ou possessivos).
Inicialmente, Tae-poong era conhecido como o filho de Kang Jin-young. Era um nome que carregava valor aonde quer que ele pisasse. E com o tempo, ele mesmo foi construindo o seu caminho como um herói legítimo, com isso, ele finaliza a sua jornada com o seu nome como CEO da Typhoon Family. Ele conquista a sua jornada. O seu processo de individuação não termina ali, mas ele conquista a si mesmo. Na Psicologia Analítica, uma relação positiva com o pai facilita a adaptação ao mundo exterior e o desenvolvimento da persona e da vontade.

Já o seu rival, era o seu oposto, Pyo Hyeon-jun (Puer-aeuternus: aquele que se recusa a crescer, o ‘eterno adolescente’). Podemos até dizer que Pyo carrega aspectos da sombra de Tae-poong e vice-versa. A sombra contém os instintos e traços que o ego rejeita. O ódio e a inveja de Pyo, alimentados por um complexo paterno negativo (um pai que o despreza e usa meios ilícitos), exemplificam como a sombra não integrada pode dominar a personalidade e levar a ações alucinadas. Tae não sabia lidar muito bem com o lado desumano de Pyo. Em muitos episódios Tae acaba quase perdendo tudo, até a própria vida ou de sua amada,

por tamanha ingenuidade ao lidar com o mal contido em seu inimigo declarado; desprezando assim, o próprio mal em si mesmo e o colocando sempre em constante perigo. A necessidade de combater esse mal destrutivo é de todos nós! Claro que ele não faria como o seu arquirrival. Mas na própria jornada da história, em alguns momentos Tae precisa de aprender a usar de artifícios “parecidos” com os de seu rival para poder não ser derrotado. Veja bem: Tae não fazia mal algum a Pyo. Quando ele aprende que precisa lidar com Pyo de forma diferente, ele aprende a integrar sua agressividade e não perder a luta insana que vivia.

Essa “inocência” é comum em figuras arquetípicas da juventude, mas que o contato com a realidade é necessário para que a consciência se fortaleça e o indivíduo saia do “paraíso da infância”. Pyo odiava Tae por tudo. O “jeito Tae” de ser, pura e simplesmente, era algo insuportável para Pyo. Este era rico e seu pai também empresário, muito bem-sucedido, principalmente, por meios ilícitos, o que já demonstra um complexo paterno negativo por si só. O pai dele chega a expressar algo mais ou menos assim: “meu filho Pyo, você é isso que tenho. Eu queria ter tido um filho como Tae.” Isso claro, ativa o complexo de ódio mais profundo em Pyo que acaba sendo dominado pelo seu inconsciente e agindo de forma alucinada gerando problemas incalculáveis.
Mas como toda obra coreana, sofremos muito do primeiro ao último episódio, claro com pequenas vitórias ao longo do caminho; e nos minutos finais vemos a personagem principal conquistar sua jornada de forma auspiciosa.
Segundo Marie-Louise von Franz, o trabalho regular e a responsabilidade são os principais remédios para que o homem se desligue do complexo materno e “pouse” na realidade. O fato de Tae-poong assumir a empresa do pai no meio de uma crise é o catalisador perfeito para essa transformação da natureza em cultura. O trabalho atuou como o principal catalisador para o amadurecimento e a superação da “vida provisória”, um estado típico do arquétipo puer aeternus que ele inicialmente parecia habitar como um “filho despreocupado”… mas Kang Tae-poong conseguiu se transformar e se tornar num verdadeiro homem de anima integrada.
Que possamos ter mais Kang Tae-poongs por aí como exemplo de Ser Humano!
Obs.: todas as fotos foram retiradas do google imagens ou gemini.


